28/02/2024 | Educação

Plano Nacional de Educação 2024-2034 precisa de metas executáveis

Hoje o debate sobre o sistema educacional no país, com todos os seus desafios e impactos no desenvolvimento social e econômico, está voltado para o novo Plano Nacional de Educação. O PNE estabelece as diretrizes, metas e estratégias para as políticas educacionais em um período de 10 anos. Encerrada a vigência do plano 2014-2024, começaram as discussões sobre a nova lei. 

Para os participantes do Seminário Internacional SESI de Educação, realizado na manhã desta quarta-feira (28) como parte da programação do Festival SESI de Educação, há dois consensos de onde o novo PNE deve partir.  

O primeiro é que temos um cenário desolador, com índices alarmantes e a maior parte das metas não alcançadas. O segundo é que precisamos dar uma atenção especial aos jovens, ao ensino médio e à formação para o mundo do trabalho. 


“O PNE 2024-2034 vai seguir a lógica do retrovisor ou preparar o país para o desafio desse século? O Plano anterior cumpriu apenas 40% das metas de educação básica. Quais as causas do fracasso? O acesso está garantido, a aprendizagem não”, alertou Maria Helena Guimarães, conselheira do Conselho Estadual de Educação de São Paulo e referência na área no país. 


Os números que alertam para a crise na educação 

A partir da provocação, ela apresentou dados que mostram a crise do sistema educacional, especialmente nos anos finais da educação básica. De cada 10 alunos que ingressam no ensino médio, apenas 69 concluem os estudos, e sem os níveis de aprendizagem adequados. Antes mesmo de chegar a essa etapa, os estudantes já sofrem com a distorção idade-série. 

Segundo Maria Helena, o Brasil tem uma média de 16% dos estudantes no 6º ano com pelo menos dois anos de atraso escolar. Esse é um aluno que, provavelmente, vai contribuir para as altas taxas de evasão no ensino médio. Ela lembrou dos 9 milhões de brasileiros de 18 a 29 anos que não concluíram a última etapa da formação básica. 

Para concluir, a conselheira defendeu que, diante desse quadro, as prioridades do novo PNE devem ser a primeira infância, o desenvolvimento de habilidades básicas cognitivas e socioemocionais, a formação dos jovens para o mundo do trabalho e a formação docente. “Precisávamos de mais tempo para ter uma discussão plural e efetiva do novo PNE. E temos que estabelecer poucas metas e que sejam exequíveis”, pontuou. 

Formação para o mundo do trabalho 

O debate sobre o PNE 2024-2034 puxou outra discussão, a da preparação para o mercado de trabalho. Apenas 22% dos estudantes seguem a trajetória estudantil para o ensino superior, então é indispensável que o jovem que conclui o ensino médio tenha a opção da formação profissional para melhores oportunidades no mundo do trabalho. 

Assista ao seminário! 

Seminário Internacional SESI de Educação

Confira as principais declarações dos participantes do Seminário Internacional SESI de Educação: 

Rafael Lucchesi, diretor de Desenvolvimento Industrial e Economia da CNI e diretor Superintendente do SESI 

"A educação é o principal fator de competitividade de um país e necessita de reflexão de toda a sociedade. No Brasil, a gente acha que vai resolver o problema da participação dos trabalhadores no PIB brasileiro com leis no Congresso, mas é com o aumento da produtividade do trabalho, que vai dar sofisticação para os recursos humanos, para quem vai trabalhar e quem vai empreender no país." 

Luiz Roberto Curi, presidente do Conselho Nacional de Educação 

"Saiu o Índice Global de Inovação e o país subiu cinco posições. A educação profissional e tecnológica é uma das modalidades mais relevantes para a educação superior e a pesquisa. Não tem inovação e pesquisa que se sustentem com a evasão das escolas. Temos vários debates sobre a reforma, sobre legislação, mas não olhamos para o básico, que é o acolhimento e a permanência na escola." 

Maurício Holanda, secretário da Secretaria de Articulação Intersetorial e com os Sistemas de Ensino/MEC  

"O PNE pode ancorar mudanças. Temos muito o que fazer. A primeira urgência é a educação profissional e tecnológica. Precisamos mais em qualidade do que em quantidade, com oferta conectada à renda e às demandas do setor produtivo. Isso requer que a gente olhe para a aprendizagem e o sistema dual." 

Alice Andres Ribeiro, CEO e Diretora de Articulação do Movimento pela Base 

"Desde 2013, o Movimento pela Base se dedica a pensar uma base nacional comum curricular, para promover equidade e qualidade na aprendizagem. Precisamos de continuidade nas políticas. Desde 1837, o Brasil definiu 22 diretrizes para o ensino médio. Ou seja, a cada oito anos e meio, redes, escolas, professores, estudantes e famílias tiveram que se adaptar a mudanças nesta etapa." 

Fernanda Flores, educadora e especialista 

"A escola e os professores têm um papel fundamental para ajudar os jovens a atuarem no presente e se conectar com o mundo do trabalho. O grande papel dos professores é engajar os alunos, tanto no olhar de crítica, de indignação para as complexidades da sua realidade, mas também nas perspectivas de ação e protagonismo. Ter a construção do futuro a partir do presente." 

Pilar Lacerda, pesquisadora associada ao DGPE-FGV RJ e consultora pedagógica na Lekto 

"O papel do professor não acaba com a inteligência artificial, mesmo porque não acabou com o Google. Mas a nossa profissão vai mudar muito. Precisamos fortalecer e reconhecer a profissão docente como estratégica para o desenvolvimento industrial do Brasil, precisamos ter grupos de apoio e reflexão. Nossa profissão é insubstituível, mas precisamos mudar as perguntas e pensar que estamos formando para esse mundo líquido e moderno." 

Hélvia Paranaguá, secretária de educação do DF 

"Das 12 escolas pilotos do DF, 100% são a favor da permanência do novo ensino médio, com ajustes. O que não dá é para retroceder para um sistema que não abarca a necessidade atual. A gente precisa ampliar a educação técnica. Outro ponto de atenção é que não dá para fazer educação, principalmente educação profissional, sem parcerias; e estamos fortalecendo os parceiros." 

Patrícia Barcelos, diretora de Políticas e Regulação da Educação Profissional e Tecnológica do MEC 

"Esse ano vamos construir a Política Nacional de Educação Profissional e Tecnológica e a Política de Formação em EPT. Para isso, precisamos olhar para nossos alunos e para todas as diversidades. Educação técnica precisa de laboratório, de profissionais qualificados. E os jovens precisam conhecer a força da educação técnica e como acessar." 

Maria Luíza Cerqueira, estudante do E.M SESI Bahia  

"Educação, para mim, sempre foi mais do que ir para a escola, é um valor. Então, eu precisava fazer meu ensino médio em uma escola que me motivasse a aprender e que entendia que o mundo está sempre mudando. A escola precisa abrigar os anseios dos seus alunos, e o SESI é uma escola ‘incomum’ porque olha para isso. O SESI ouve a gente e nos permite falar também. " 

Leonardo Lapa, gerente de educação básica do SESI  

"O Brasil ainda não encontrou um método de fazer o ensino médio como a gente deseja, mas ele aprendeu como não fazer. Passamos 30 anos em um projeto que fracassou e é importante falar isso, porque tem gente que voltar para esse projeto. Não podemos fingir que não aprendemos nada nesses sete anos e precisamos olhar para o que podemos melhorar, com base no que não devemos fazer. E como melhorar o ensino médio sem tirar o poder de escolha dos alunos, sem tirar o projeto de vida." 

Foto: Augusto Coelho/SESI

Da Agência de Notícias da Indústria